Processo gera o húmus para ser utilizado em hortas, vasos e jardins

Uma solução ambiental marcada pelo equilíbrio entre os seres vivos e o uso de processos naturais para diminuir a quantidade de lixo que vai para os aterros. Essa é a proposta do engenheiro José Furtado, que vive no distrito de Barão Geraldo, em Campinas. No dia a dia, é comum que, depois da limpeza de jardins ou quintais, folhas e galhos parem no lixo comum, não raro dentro dos sacos pretos de plástico, à espera da coleta. Também é assim com os resíduos que saem da mesa: restos de alimentos se juntam a plásticos, papéis e vidros e tudo isso colabora para a saturação dos espaços destinados ao descarte do lixo. A proposta de Furtado propõe uma mudança: só vai para os aterros o que, de forma caseira e barata, não pode ser reaproveitado.

O engenheiro José Furtado na Praça São João, em Barão Geraldo, onde realiza um trabalho de compostagem com o apoio da população (Foto: Augusto de Paiva/AAN)

O engenheiro José Furtado na Praça São João, em Barão Geraldo, onde realiza um trabalho de compostagem com o apoio da população
(Foto: Augusto de Paiva/AAN)

Quando estava na etapa final do curso de pós-graduação em sustentabilidade e responsabilidade social na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2008, ele resolveu produzir seu trabalho de conclusão pesquisando de que forma era possível reaproveitar, com eficácia e sem poluir, os restos das podas das árvores e plantas da Praça São João, também em Barão Geraldo. Foi aí que ele iniciou uma prática que, hoje, já conta com o apoio comunitário. O local, por sinal, é um exemplo de sustentabilidade: moradores da região não querem que as ruas sejam asfaltadas, pensando no escoamento da água das chuvas.

Na redondeza, ninguém mais coloca as folhas tiradas do quintal ou do jardim na lixeira: tudo vai para um canto da praça. Duas vezes por semana, Furtado vai até lá para organizar o material: deixa o monte no tamanho ideal, remexe as folhas e mede a temperatura. Para se decompor rapidamente, o ideal é que os resíduos estejam úmidos, mas ao mesmo tempo bem quentes, para gerar fermentação. Em cerca de dois ou três meses, as folhas, que antes incomodam, se tornam adubo orgânico para fertilizar os próprios quintais de onde foram retiradas. “Com isso, resolvem-se dois problemas. O primeiro é que vamos fazer a nossa parte para diminuir a quantidade de lixo. O segundo é que evitaremos o uso dos fertilizantes químicos em casa, principalmente em função dos animais, crianças e dos idosos, mais sensíveis”, diz o engenheiro.

Expansão
A ideia deu tão certo que Furtado decidiu também expandir a proposta e criou a Compo, uma composteira que utiliza minhocas para decompor restos de legumes, frutas, hortaliças, cascas de ovos e até papel picado. “Pode parecer pouco, mas tudo isso ia colaborar para o aumento da quantidade de lixo. E o que seria pior: muita gente se esquece que o plástico demora milhares de anos para se decompor e acomoda esses resíduos em sacos plásticos”, afirma.

A composteira é simples e já tem sido adotada por organizações não governamentais (ONGs) e, principalmente, por famílias. Num recipiente de plástico, é colocado substrato e cerca de 700 gramas de minhoca-vermelha-da-califórnia, espécie que, ao contrário da comum, não tem a necessidade de cavoucar, o que permite que elas vivam e se reproduzam em espaços menores. Além das minhocas, a Compo utiliza também os micro-organismos aeróbicos que se formam naturalmente no substrato e nos alimentos para ajudar na decomposição.

Húmus
O processo não tem cheiro ruim e gera o húmus, rico complemento que pode ser utilizado em hortas, vasos e jardins. “Esse método dá para ser utilizado inclusive em apartamentos”, afirma Furtado. Quem pensa que isso vai acabar com a estética da casa, se engana: a composteira é montada num recipiente de plástico, que se assemelha a uma vasilha do tipo utilizado para guardar alimentos. As cores e o design podem variar a critério do usuário. Como é feita de plástico, a durabilidade é indefinida.

Entre as sobras de comida, as únicas que não conseguem ser decompostas pelo processo são as gordurosas ou as carnes. Uma composteira com cerca de 50 centímetros de comprimento e 30 de largura é capaz de decompor, em média, os resíduos de duas pessoas. O tempo necessário varia de acordo com cada alimento. Um pedaço de fruta, como uma manga, por exemplo, leva cerca de uma semana para se transformar em húmus.

banner-footer Contato4